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Opinião | Ser professor ainda faz sentido? Reflexões sobre o trabalho docente no Brasil

* Augusto César Ferreira Barbosa, professor de História na rede estadual de Educação, Mestre em Ensino de História (UFT), Historiador (UFT) e  Pedagogo (UNIBF)

Começo esse texto com uma charge do século dezenove, do semanário cômico Revista Ilustrada (1876-1898) de autoria do italiano naturalizado no Brasil Ângelo Agostini (1843-1910). Na edição datada de 26 de maio de 1877.

No quadro escolhido é possível ler em letras garrafais a seguinte mensagem: “O Governo entende que não há necessidade de professores; basta que os meninos olhem para os palacetes – escolas para ficarem perfeitamente instruídos”. 

O caráter jocoso encontrado na pena e no traço do artista ao retratar o episódio dentro do contexto dos oitocentos é, em resumo, um elemento que, na atualidade, ressoa como um problema de caráter contemporâneo: o acesso à educação formal que é ofertada pelo Estado Brasileiro. Ser professor no Brasil ainda faz sentido?

No dia 06 de agosto é comemorado o Dia Nacional dos Profissionais da Educação. A data foi promulgada como forma de lembrar o desafio diário que educadores – do pré-escolar ao ensino superior – e que representa todo o cosmos que habitam nas escolas: professores, diretores, merendeiras, porteiros e faxineiros. Todos eles são essenciais para o ensino de qualidade e para uma boa convivência no ambiente de ensino. Contudo, os dados demostram que a realidade é, por vezes, bastante cruel para com a classe. 

Segundo os dados Fórum Nacional de Educação do Campo, das Águas e das Florestas (FONEC), publicado em 2025, Entre os anos de 2000 e 2024, 163.854 escolas foram extintas em todo o país, sendo 110.758 localizadas em territórios rurais e 53.096 em territórios urbanos. Ao mesmo tempo, em que haverá um eminente “apagão dos professores” até o ano de 2040, visto que, de acordo com o levantamento realizado pelo Instituto Semesp, o déficit de aproximadamente mais de 240 mil professores na educação básica.

O fato é que o cenário atual não é muito animador para os recém licenciados: baixos salários, carga de trabalho alta, a falta de condições na infraestrutura escolar, violência psicológica e física por parte dos estudantes – vide os casos recentes noticiados e os milhares silenciados pelas Regionais de Ensino desse país – e soma-se a isso o crescente desinteresse de estudantes do Ensino Médio em ingressarem na profissão, evidenciando a urgência de repensar a escola e o lugar da educação em nosso meio.  

E a mudança não parte apenas dos entes envolvidos, mas da sociedade civil organizada na promoção de políticas públicas pelo poder público, valorização da carreia docente, melhores condições de trabalho e planos de educação que projetem uma formação baseada nos princípios humanísticos, éticos, comunitários, democráticos que este milênio exige de cada um de nós.

Se esta data nos convida a homenagear aqueles que diariamente estão na linha de frente da educação, ela também deve servir como um momento de reflexão. Afinal, a verdadeira batalha travada pelos professores não é contra seus estudantes, mas contra o analfabetismo, a ignorância, a desigualdade e todas as formas de exclusão que limitam o acesso ao conhecimento. Valorizar os profissionais da educação é, antes de tudo, reconhecer que não há futuro possível sem uma educação de qualidade para todos.

Fonte: AF Noticias