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1ª Farinhada do Jatobá transforma 600 quilos do fruto em renda, tradição e memória no Tocantins

Notícias do Tocantins – Cerca de 600 quilos de jatobá já estavam colhidos quando moradores se reuniram, na manhã do último sábado (26/09), para a 1ª Farinhada do Jatobá da região sudeste do Tocantins. Realizado na comunidade quilombola Poço Dantas, em Almas, o encontro uniu produção, convivência e preservação de saberes ancestrais.

A preparação começou semanas antes, com a colheita dos frutos envolvendo desde os moradores mais idosos até as crianças da comunidade.

Nesta época do ano, os jatobazeiros, árvores de grande porte espalhadas pelo Cerrado, ficam carregados com o chamado “fruto duro”, significado atribuído à palavra jatobá, de origem tupi.

O dia da farinhada reuniu centenas de pessoas na casa dos mestres e líderes professor Daniel e Fulozina Crisóstomo. O trabalho coletivo também se transformou em espaço de convivência e transmissão de conhecimento entre gerações.

Mestre José Batista, conhecido como Zé Menininho, da comunidade quilombola Mateiros, no Jalapão, foi um dos principais responsáveis por conduzir a troca de saberes com os moradores.

Produção, memória e convivência

A transformação do jatobá em farinha é um conhecimento transmitido de geração em geração. Além de preservar técnicas tradicionais, a atividade também pode representar uma alternativa de geração de renda.

Convidado pela Associação de Apoio às Unidades de Conservação Onça D’Água, mestre Zé Menininho destacou justamente esse potencial. “Na minha região eu sou o único produtor e não estou dando conta de manter o mercado”, afirmou, ao incentivar a comunidade a dominar as técnicas de produção e aproveitar economicamente o fruto.

Antes do início da farinhada, crianças do projeto Chão de Saberes fizeram apresentações culturais com folia e dança da suça.

Em seguida, o presidente da Associação do Poço Dantas, Aniel Crisóstomo, abriu os trabalhos ressaltando que a prática também ajuda a manter vivas técnicas utilizadas pelos antepassados. “Temos que manter a nossa cultura, a cultura dos nossos ancestrais, porque se não preservarmos e valorizarmos, em algum momento isso tudo vai acabar, como a técnica do pilão, da mesa e da roda de farinha, do tapiti”, afirmou.

Segundo ele, embora a produção da farinha de jatobá seja uma tradição mais presente em outros povos quilombolas, a experiência também contribui para valorizar técnicas já conhecidas e utilizadas na própria comunidade.

Na sequência, a equipe da Onça D’Água, liderada pela diretora-executiva Angélica Beatriz Correia Gonçalves, apresentou o projeto e distribuiu luvas, máscaras e toucas para o início da produção.

Do fruto à farinha

Os frutos, protegidos por uma casca dura, foram quebrados com pedaços de troncos secos. A polpa amarelada e aromática era então separada das sementes e levada ao pilão, onde começava o processo de transformação.

Depois de peneirada, a massa extraída seguia para o forno instalado no terreiro da comunidade, sendo mexida continuamente até atingir a secagem necessária.

Enquanto o trabalho avançava, moradores e visitantes compartilhavam histórias sobre o cotidiano da comunidade e outras experiências de vida. Os mais jovens participavam de todas as etapas, aprendendo as técnicas ao lado dos mais velhos.

Mais de 40 quilos de farinha

Ao final do trabalho, mais de 40 quilos de farinha de jatobá haviam sido produzidos.

O produto, de alto valor nutritivo, pode ser utilizado na preparação de bolos, pães, biscoitos, mingaus, vitaminas e diferentes receitas. Parte da produção foi distribuída entre os moradores e outra parte será destinada à comercialização.

A expectativa é que novas farinhadas sejam realizadas, ampliando o conhecimento da comunidade sobre o manejo do jatobá e as possibilidades de consumo e geração de renda a partir do fruto.

Tradição que mantém o Cerrado em pé

A representante do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Silvana Bastos, destacou o protagonismo das comunidades na construção de formas sustentáveis de geração de renda e conservação do Cerrado. “E este dia é especial para mostrar essa força”, afirmou.

Para Migulenaes Crisóstomo, liderança da comunidade quilombola, a farinhada também se destacou pela troca de conhecimentos e pela mobilização de moradores do Poço Dantas, de comunidades vizinhas e do próprio município. “Tenho certeza que essa experiência será muito enriquecedora e valiosa para a nossa comunidade”, declarou.

Mais do que produzir farinha, a iniciativa ajudou a valorizar conhecimentos quilombolas e fortalecer a relação entre comunidade, cultura e natureza. A farinhada do jatobá se consolidou, assim, como uma prática que reúne produção, identidade e memória coletiva.

A 1ª Farinhada do Jatobá do sudeste do Tocantins foi realizada com apoio do Fundo Ecos, por meio do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN); da Associação de Apicultores e Meliponicultores de Almas e Região (Apiam); da Rede Jatobá; da Aura Minerals; e da Prefeitura de Almas.

Tradição ainda contribui para valorizar os conhecimentos quilombolas.

Trabalho resultou em mais de 40 quilos de farinha.

Fonte: AF Noticias