Influenciadora é alvo de denúncia após vídeo polêmico em aldeia indígena no Tocantins
Notícias do Tocantins – A visita da influenciadora Tânia Mara à Aldeia Canuanã, da etnia Javaé, em Formoso do Araguaia (TO), terminou em denúncia ao Ministério Público do Tocantins (MPTO) e gerou forte reação de lideranças indígenas e entidades nas redes sociais.
A Associação Comunidade Indígena da Aldeia Canuanã (Aciac) aponta que a influenciadora e seu filho, Rafael Martins, teriam publicado vídeos com conteúdo considerado discriminatório contra a cultura do povo Javaé, incluindo críticas à culinária tradicional e exposição de crianças.
A denúncia foi formalizada na terça-feira (21), após a repercussão de conteúdos divulgados no último dia 19 de abril — data em que se celebra o Dia dos Povos Indígenas.
Conteúdo dos vídeos
Segundo a associação e relatos de lideranças indígenas, os vídeos mostram situações em que tradições e costumes da comunidade são tratados de forma estereotipada e jocosa.
Entre os pontos criticados estão comentários sobre a culinária típica, pedidos para que indígenas realizassem práticas caricaturadas — como a chamada “dança da chuva” — além da reprodução de falas e sons considerados preconceituosos. Também há registros de exposição de crianças indígenas e, segundo críticas nas redes sociais, interações físicas consideradas inadequadas.
Para a Aciac, o material ultrapassa o limite do registro cultural e configura desrespeito à identidade e à dignidade do povo Javaé.
“Nós não aceitamos”
Em vídeo publicado nas redes sociais, o presidente da associação, Fabiano Kanari Javaé, afirmou que a manifestação ocorre em nome do cacique e de toda a comunidade.
“Esse tipo de coisa nós não aceitamos. As medidas vão ser tomadas para que essa pessoa responda pelos seus atos”, declarou.
A entidade afirma que o episódio configura discriminação cultural e relata que, além da denúncia ao MPTO, outras medidas judiciais estão sendo avaliadas, incluindo questionamentos sobre a entrada no território e a gravação de imagens sem autorização.
Segundo a associação, a presença de não indígenas e o registro de imagens na aldeia dependem de autorização expressa do cacique, conforme protocolo interno.
Reação nas redes: “racismo e desumanização”
O caso provocou forte repercussão entre influenciadoras indígenas, que classificaram o conteúdo como ofensivo e racista.
A influenciadora indígena Lu Prata fez um paralelo histórico ao afirmar que episódios como esse reproduzem práticas coloniais de exposição de povos originários. “Percebe uma semelhança? Porque eu a vejo nitidamente”, escreveu.
Já a influenciadora indígena Ybotyra Kixelô Kariri foi mais direta: “O que aconteceu ali não foi ‘brincadeira’, foi racismo explícito, desrespeito e objetificação”.
Ela criticou atitudes relatadas nos vídeos, como pedidos por “dança da chuva” e imitações estereotipadas. “O que muitos chamam de humor, nós chamamos pelo nome certo: violência simbólica, racismo e desumanização”, afirmou.
O perfil Mídia Javaé também se manifestou em apoio à comunidade e às lideranças da aldeia, afirmando que houve “má-fé” e violação das regras internas. “Não aceitaremos que a nossa cultura seja ridicularizada para gerar conteúdo na internet. O povo Javaé exige respeito”, diz a publicação.
O que diz a influenciadora
Em nota, Tânia Mara apresentou sua versão dos fatos e afirmou que a visita ocorreu a convite de uma integrante da própria comunidade indígena, o que, segundo ela, indicaria que não houve invasão ou desrespeito ao território.
De acordo com a influenciadora, o objetivo da viagem foi “valorizar e dar visibilidade à cultura indígena”, especialmente em alusão ao Dia dos Povos Indígenas. Ela também afirmou que tanto ela quanto o filho agiram “de boa-fé durante toda a experiência”.
Apesar disso, diante da repercussão negativa, a influenciadora reconheceu falhas na condução do conteúdo publicado.
“Reconheço que poderia ter agido com mais cautela na forma de registrar e compartilhar aquele momento”, afirmou.
Tânia Mara também pediu desculpas diretamente à comunidade: “Expresso meu mais sincero arrependimento por qualquer dor, desconforto ou sentimento de desrespeito que possa ter sido causado”, disse, acrescentando que está à disposição para dialogar com as lideranças da aldeia “com o máximo respeito e empatia”.
Mesmo com a retratação, o caso segue sob apuração e mantém forte repercussão, ampliando o debate sobre os limites éticos da produção de conteúdo digital e o respeito às culturas indígenas.
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Fonte: AF Noticias
