BNCC no celular: bilhões de reais e o conto de fadas digital que custa caro ao brasileiro
Fernando Maciel Vieira | Professor
Lotta Edholm, ministra da Educação da Suécia, olhou para os dados do PIRLS — exame internacional de leitura — e disse em voz alta o que nenhum tecnocrata brasileiro teria coragem de admitir: “Estamos em risco de criar uma geração de analfabetos funcionais.” Dito isso, ela assinou o cheque: 45 milhões de euros investidos em 2023 para reverter a digitalização total das escolas suecas. Livros de papel. Cadernos. Lápis. Coisas primitivas. Bárbaras. Analógicas. Exatamente o tipo de coisa que o Brasil está jogando no lixo — com entusiasmo, com orgulho e, o melhor de tudo, com dinheiro público.
Porque, vejamos: aqui, quem dita o ritmo da educação não são exatamente os professores. São, digamos, os investidores. Para entender a BNCC, é necessário acompanhar a atuação de organismos internacionais como a OCDE e o Banco Mundial, assim como a ingerência de fundações e consultorias brasileiras. Entre tantas, destacam-se: Fundação Lemann, Instituto Ayrton Senna, Instituto Natura, Fundação Itaú Social, Fundação Roberto Marinho e Itaú BBA. Banco financiando currículo escolar. Instituto de bilionário reformando a escola pública. Que cenário mais improvável. Que filantropia mais desinteressada.
Não se trata, claro, de mera coincidência. O governo federal contraiu uma dívida de 250 milhões de dólares com o Banco Mundial para implantar o Novo Ensino Médio, com liberação condicionada ao cumprimento de metas definidas pelo banco até 2023, como reformas curriculares nos estados. Traduzindo: o credor define a merenda. E a merenda é digital. E tem sabor de contrato. Enquanto isso, a Suécia concluiu — após 15 anos de experimento — que o uso intensivo de recursos digitais nas salas de aula, especialmente nas séries iniciais, está associado a prejuízos na aprendizagem. Uma pesquisa com 2 mil professores suecos revelou que 1 em cada 5 docentes supunha que seus alunos nunca haviam redigido um texto manualmente. Genial. Mas por que se preocupar com isso se o celular tem autocorretor?
No Peru — por gentileza, não esqueçamos o Peru — a distribuição de mais de um milhão de laptops em escolas públicas não gerou melhorias comprovadas na aprendizagem. A UNESCO, essa mesma entidade que o MEC cita seletivamente quando convém, publicou o relatório intitulado “Tecnologia na educação: uma ferramenta a serviço de quem?”, alertando sobre os impactos negativos da introdução de tecnologias na educação sem qualquer diálogo ou reflexão crítica. Pergunta excelente, UNESCO. A serviço de quem?
A resposta está no lançamento da Estratégia Nacional de Escolas Conectadas — R$ 7 a 8 bilhões reservados, obrigado contribuinte — onde marcou presença a MegaEdu, uma coalizão de 14 ONGs interessadas em ditar a política educacional digital do Brasil, com assento garantido no Conselho Gestor do FUST, órgão que investirá R$ 2,1 bilhões no programa. Entre os apoiadores da MegaEdu: Instituto Península (Carrefour, de Abílio Diniz), Fundação Lemann, Fundação Itaú Social (ligada à família Moreira Salles) e fundos americanos. A salvação da escola pública brasileira tem patrocinador. Tem logo. Tem CNPJ.
O Banco Mundial está articulado a redes como o “Todos pela Educação” e o “Movimento pela Base Nacional Comum”, compostos por institutos empresariais com atuação expressiva na educação, como a Fundação Lemann e o Instituto Ayrton Senna. E o professor? O professor estava em sala de aula. Não foi convidado para o seminário em Oxford. Não embarcou para os EUA com os deputados que foram conhecer o Common Core americano — aquele financiado pela Fundação Bill Gates que, coincidentemente, serviu de modelo para a nossa BNCC, financiada pela Fundação Lemann. O mundo é pequeno quando os cheques são grandes.
A ministra sueca destacou que houve uma postura acrítica em relação à tecnologia, negligenciando o conteúdo em favor da forma. No Brasil, a postura não é acrítica. É entusiasmada. É festa. É lançamento com telão e palestrante americano. Enquanto a Suécia revogou a digitalização dos testes nacionais e tornou obrigatória a presença de bibliotecas com acervo físico em todas as escolas até 2025, São Paulo decidiu fornecer apenas material didático digital para o Fundamental II e o Ensino Médio. O governador até prometeu que daria para imprimir — se o aluno pedisse. Que avanço. Que modernidade. A impressora como resistência pedagógica.
Com a BNCC e o “novo” ensino médio, a educação deixa de ser concebida como direito dos cidadãos e passa a ser encarada como um serviço a ser precificado e contabilizado. O celular é o espelho perfeito desta escola: ela se olha, acha linda a própria inovação, posta nas redes educacionais internacionais, colhe aplausos da OCDE — e não percebe que a imagem no espelho já estava quebrada antes de ela chegar.
O conto de fadas digital tem um final: a Branca de Neve acorda. A pergunta é quando o Brasil vai acordar — e quantas bilhões de reais de verba pública vão sumir antes disso.
Fonte: AF Noticias
