Opinião | Amizade ou conveniência: amigos não soltam a mão do outro na dificuldade
Nubia Martins – Jornalista
Não é todo dia que amizades de conveniência ganham as manchetes dos jornais. Quando isso acontece, porém, os fatos costumam expor, de forma dura, a fragilidade de vínculos sustentados apenas enquanto tudo vai bem.
A notícia de que Juliana Marins ficou para trás durante uma trilha no Monte Rinjani, um vulcão na Indonésia, e que, em seguida, sofreu uma queda grave que a levou à morte, causou profundo impacto em uma mulher que acompanhou o caso com atenção e sensibilidade. O episódio a abalou não apenas pela tragédia em si, mas pelo abandono que revelou.
A situação trouxe à tona lembranças dolorosas de sua própria trajetória. Após a separação conjugal, ela viveu a experiência da solidão em um dos momentos mais frágeis da vida. Amigos dos antigos círculos de casais se afastaram, mesmo cientes da dureza que enfrentava na convivência a dois. Para ela, a sociedade tende a estigmatizar a mulher que não tolera o machismo, que não aceita ser manipulada nem silenciada. Essa fase, no entanto, foi superada, já que nunca desejou servir como exemplo de dominação para ninguém.
Ainda assim, a reflexão não se restringe aos relacionamentos conjugais, mas se amplia para as amizades — aquelas nas quais se deposita a expectativa legítima de apoio nos momentos mais difíceis e que, justamente nesses momentos, desaparecem.
Outro fato recente reforçou essa percepção. Uma jovem abandonou um amigo durante uma trilha no Pico do Paraná para acompanhar um grupo de corredores. Deixado para trás, ele desapareceu e só foi encontrado com vida cerca de uma semana depois. Foi ela quem o convidou para a caminhada, mas acabou por abandoná-lo por ele não ter o mesmo desempenho físico nem o mesmo estilo de vida, conforme relatou em entrevista ao vivo à imprensa.
Para quem observa essas histórias, a conclusão é clara: amigos não dão as costas na escassez. Na dor, sustentam com palavras, afeto e presença. Amigos não soltam a mão do outro na dificuldade; quando isso acontece, trata-se de convivência por conveniência, não de vínculo verdadeiro.
Essa mulher também conheceu o sentimento de desprezo, no sentido mais literal da palavra: a ausência de acolhimento.
Os acontecimentos despertaram gatilhos emocionais, mas não a fizeram recuar. A dor passou, as feridas cicatrizaram, e foi possível sair do próprio despenhadeiro e seguir em frente. Assim como o sobrevivente da trilha, precisou enfrentar a solidão e o medo para continuar vivendo.
Encontrou nos estudos, nas leituras e na abertura para novos horizontes uma forma de reconstrução. Novas amizades surgiram, outros caminhos se abriram.
A dor e a solitude funcionaram como mola propulsora. A fé e a esperança a mantiveram de pé e lhe ensinaram a diferenciar pessoas, situações e vínculos.
As marcas permaneceram, mas não apagaram a convicção de que ainda há pessoas boas ao longo do caminho, nem o compromisso de não pagar o mal com o mal e de seguir oferecendo a mão a quem, de forma sincera, estiver disposto a estendê-la.
Fonte: AF Noticias
