Opinião | O escândalo do Banco Master e um sistema que está por um fio
Keslon Borges | Economista e Especialista em Gestão Pública
A crise envolvendo o Banco Master expõe algo que vai muito além de um problema financeiro isolado. O que se observa, a partir das informações que circulam nos bastidores políticos, jurídicos e econômicos, é a fragilidade de um sistema inteiro que parece sustentado não por fundamentos sólidos, mas por relações de poder, vaidade institucional e volumes vultosos de dinheiro.
Quando instituições financeiras passam a orbitar o centro do poder político, o risco deixa de ser apenas contábil e passa a ser sistêmico. A percepção crescente é a de que todos os poderes da República, em maior ou menor grau, foram seduzidos por uma combinação perigosa: contratos milionários, acesso privilegiado, benefícios indiretos e uma blindagem institucional que desafia os mecanismos tradicionais de controle.
Um dos pontos mais sensíveis dessa crise é a multiplicação de contratos de valores elevados cuja efetiva prestação de serviços é, no mínimo, questionável. Em um ambiente saudável, contratos públicos e privados precisam obedecer a critérios de eficiência, transparência e finalidade. Quando isso não ocorre, cria-se um terreno fértil para o chamado capitalismo de compadrio, onde o mérito é substituído pela proximidade com o poder.
Nesse contexto, o tráfico de influência deixa de ser exceção e passa a ser método. Relações institucionais se confundem com relações pessoais. Decisões que deveriam ser técnicas passam a ser políticas. E o sistema, pouco a pouco, vai sendo capturado.
O luxo como sintoma, não como causa
Carona em jatinhos, acesso a ambientes exclusivos, facilidades em negociações e portas abertas em instâncias decisórias não são, por si só, crimes. Mas são sintomas claros de um ambiente onde o dinheiro compra influência e a influência compra silêncio. A vaidade institucional, o desejo de pertencer ao círculo certo, de manter prestígio e poder, funciona como catalisador desse processo.
Quando autoridades passam a conviver de forma promíscua com interesses financeiros privados, a linha entre o público e o privado se dissolve. E essa dissolução é o primeiro passo para a corrosão da credibilidade institucional.
Blindagem e medo da verdade
Talvez o aspecto mais preocupante dessa crise seja a percepção de blindagem. Não necessariamente uma blindagem formal, explícita, mas uma proteção difusa, silenciosa, construída por meio de relações, favores passados e expectativas futuras. É nesse ponto que o sistema revela sua maior fragilidade: o medo da verdade.
Uma eventual delação, ainda que apenas como hipótese, representa uma ameaça não a uma instituição específica, mas a toda uma engrenagem. Quando muitos sabem demais, todos passam a depender do silêncio. E um sistema baseado no silêncio está sempre por um fio.
Um sistema que não aguenta luz
A crise do Banco Master revela, sobretudo, que o sistema brasileiro não adoece por falta de leis, mas por excesso de tolerância. Tolerância com contratos mal explicados, com relações nebulosas, com benefícios indevidos e com a confusão deliberada entre interesse público e interesse privado.
O problema não é apenas quem paga ou quem recebe. O problema é quem finge não ver.
Quando o dinheiro substitui a República
Quando o dinheiro passa a organizar as relações institucionais, a República perde sua função. O Estado deixa de servir à sociedade e passa a servir a arranjos. A crise atual não é apenas financeira ou reputacional, é moral e estrutural.
Se o sistema está por um fio, não é por causa de uma possível delação. É porque ele foi construído assim: dependente de vaidade, sustentado por dinheiro fácil e protegido por silêncios convenientes.
E sistemas assim, mais cedo ou mais tarde, caem, não por ataque externo, mas pelo peso das próprias contradições.
Keslon Borges é economista e especialista em Gestão Pública | @keslon_borges_oficial
Fonte: AF Noticias
