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Opinião | O telhado de vidro da República e a responsabilização de ministros do STF

Keslon Borges | Economista e Especialista em Gestão Pública (@keslon_borges_oficial)

Há algo de profundamente frustrante — e ao mesmo tempo revelador — no desejo recorrente de grande parte dos brasileiros de ver ministros do Supremo Tribunal Federal responsabilizados por abusos, tráfico de influência e outras condutas que, aos olhos do cidadão comum, jamais passariam incólumes. Esse desejo, no entanto, parece sempre esbarrar em um obstáculo estrutural: o Senado Federal.

Na teoria constitucional, o Senado é o guardião do freio institucional, o órgão responsável por processar e julgar ministros do STF quando estes extrapolam os limites da lei e da função. Na prática política, porém, esse papel se dissolve em cautela excessiva, silêncio estratégico e inércia conveniente. Não por acaso.

O Senado brasileiro abriga um percentual relevante de parlamentares que possuem processos tramitando justamente no Supremo Tribunal Federal. Alguns são públicos, outros seguem sob o manto do sigilo. Essa realidade cria uma relação assimétrica e, ao mesmo tempo, paralisante. Como exigir firmeza de quem sabe que, em algum momento, pode voltar a ser réu, investigado ou alvo de decisões da mesma Corte que deveria fiscalizar?

Forma-se, assim, um ambiente de proteção mútua. O STF se mantém intocado porque o Senado não avança. O Senado se mantém cauteloso porque teme o STF. Não se trata necessariamente de um acordo explícito, mas de uma dinâmica institucional baseada no medo, na conveniência e na autopreservação. Um sistema que não precisa combinar nada para funcionar — ele simplesmente funciona assim.

O resultado é uma sensação coletiva de impunidade ilimitada. A população observa, cobra, se indigna, mas percebe que o sistema foi desenhado para neutralizar qualquer ruptura real. O discurso do combate à corrupção segue vivo nos palanques e nas redes sociais, mas morre nos corredores onde decisões efetivas precisariam ser tomadas.

Nesse contexto, a metáfora do teto de vidro se impõe. Quem tem fragilidades expostas não atira pedras. Quem carrega processos, investigações ou riscos jurídicos evita confrontos institucionais. A coragem, nesse cenário, não é uma virtude incentivada — é um risco a ser evitado.

A tragédia não está apenas nos indivíduos, mas na engrenagem que transforma conflitos de interesse em regra silenciosa. Enquanto isso, a sociedade assiste a um jogo de empurra institucional em que ninguém cai, ninguém responde e ninguém assume responsabilidade plena.

No fim, a pergunta que ecoa não é se há abusos ou desvios, mas se o sistema ainda é capaz de corrigi-los. Quando todos vigiam todos, mas ninguém ousa agir, a República entra em estado de anestesia. E uma democracia anestesiada não morre de uma vez — ela vai perdendo sensibilidade, até que a injustiça já não cause mais espanto.

Talvez seja essa a maior derrota: não a ausência de mecanismos legais, mas a falta de coragem para usá-los. Porque, no Brasil institucional, quem tem teto de vidro não combate corrupção. Apenas espera que o silêncio seja mais resistente que a verdade.

Fonte: AF Noticias