ROSANNA MEDEIROS FERREIRA ALBUQUERQUE | O mundo como tabuleiro: quando a política externa parece uma partida de War
Quem viveu nos anos 70 e 80 certamente se reuniu com os amigos em torno de um jogo de tabuleiro chamado War. Para quem não viveu essa experiência e também para os jovens de hoje, que estão mais envolvidos com as telas do que com esse tipo de entretenimento, vou tentar explicar o jogo.
Havia uma caixa grande, com o mapa-múndi dividido em três partes que se ajustavam perfeitamente, como um quebra-cabeças. Nela existiam dados vermelhos (que serviam para os ataques) e dados amarelos (que eram utilizados para defesa). Cada jogador escolhia aleatoriamente seu objetivo, que poderia ser conquistar um determinado número de territórios, exterminar o exército de outro jogador ou dominar algum continente específico. O exército de cada jogador era de uma cor, e cada um espalhava seus soldados de modo a viabilizar seu objetivo, mas de forma a não explicitar a pretensão.
Durante o jogo os exércitos se expandiam lentamente, alianças eram firmadas e desfeitas de acordo com os interesses de cada jogador, que ora atacavam aqui e ali sorrateiramente. De repente, alguém incorporava ao seu regimento os exércitos dominados e decidia avançar de forma agressiva sobre o mapa. A mesa se transformava ! O objetivo deixava de ser administrar territórios e passava a ser dominar o tabuleiro (leia-se o mundo).
O jogo ficou tão popular que além do War I outros o sucederam sempre em algarismos romanos. Também foram incorporadas inovações, com a disponibilização de aviões, navios e submarinos para as invasões. Particularmente, sempre preferi o modelo inicial, com o combate fronteiriço.
As noites eram curtas para tanta guerra e os fins de semana passavam em um piscar de olhos, tudo regado a boa música, cerveja gelada, batata frita e muitas diversões paralelas.
Observando as decisões recentes de política externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lembrei imediatamente do War. O mapa-múndi parece estar sendo tratado por ele como um tabuleiro estratégico: movimentos rápidos, pressões econômicas e demonstrações de força substituem a paciência diplomática que marcou boa parte da ordem internacional do pós-guerra.
É verdade que a política externa sempre teve algo de jogo, considerando que diplomatas negociam, líderes testam limites, alianças se formam e se desfazem. A diferença é que, até um passado recente, os Estados Unidos tentavam jogar como árbitro do sistema. Sob a direção de Trump, o país parece disposto a jogar como um competidor direto.
No War, a maneira mais rápida de enfraquecer um adversário era atacar seus territórios estratégicos. Não necessariamente para conquistá-los imediatamente, mas para reduzir sua capacidade de reagir.
Na política internacional contemporânea, as tarifas comerciais têm desempenhado papel semelhante. Sob a lógica de Trump, o comércio deixou de ser apenas um mecanismo econômico e passou a funcionar como instrumento de pressão geopolítica.
Taxar produtos estrangeiros — inclusive de parceiros tradicionais — tornou-se uma forma de forçar renegociações, reequilibrar relações comerciais e demonstrar poder. Equivale a mover exércitos para a fronteira no jogo de tabuleiro, em um gesto claro de força, sem qualquer diplomacia prévia.
Quem já jogou War sabe que as alianças eram frágeis. Dois jogadores podiam cooperar para impedir que um terceiro vencesse, mas todos sabiam que aquela parceria tinha prazo de validade. Casais eram temporariamente desfeitos e conforme o objetivo de cada um, novas coalizões se formavam. Mas uma coisa era certa: tudo voltava ao que era antes no fim do jogo.
Atualmente, algo semelhante ocorre. A abordagem de Trump tem sido frequentemente descrita como transacional: alianças deixam de ser compromissos estratégicos de longo prazo e passam a funcionar como acordos pragmáticos, renegociáveis a qualquer momento.
Pressões sobre aliados para aumentar gastos militares, renegociações duras de acordos comerciais e a disposição de confrontar parceiros históricos indicam uma mudança de estilo. O sistema internacional deixa de parecer um condomínio regido por regras comuns e passa a se assemelhar mais a uma mesa de jogo competitiva. O War.
Há uma regra psicológica conhecida por qualquer jogador experiente: às vezes, um ataque grande não serve apenas para conquistar territórios, mas para intimidar o resto da mesa.
Na política internacional, demonstrações militares cumprem função semelhante. Movimentos estratégicos, operações militares ilimitadas e retórica dura são instrumentos para sinalizar poder e dissuadir adversários. Isso não é novo. Todas as grandes potências o fizeram em algum momento. O que chama atenção é a frequência com que essas jogadas são acompanhadas por uma linguagem que transforma disputas internacionais em confrontos diretos entre vencedores e perdedores.
Trago a metáfora do tabuleiro para tentar entender a “lógica” competitiva da geopolítica contemporânea, mas percebo que as diferenças são gritantes.
No jogo de War, perder significava apenas recolher as peças e começar outra partida. No mundo real, não existe reinício. Cada “território” representa países, economias, populações inteiras. Cada escalada política ou militar produz efeitos que se acumulam durante décadas. Alianças desfeitas não se recompõem facilmente. Tensões estimuladas por cálculos estratégicos podem escapar ao controle.
Tratar a política internacional como uma competição permanente pode parecer eficaz a curto prazo. A longo prazo, porém, o risco é transformar a ordem global em um ambiente cada vez mais instável: um tabuleiro onde todos acumulam exércitos e ninguém confia em ninguém.
Ao invés de um sistema internacional baseado em regras e instituições, surgiu agora uma estratégia mais direta: invasão territorial com precisão cirúrgica, deposição ilegal do poder até então constituído e lucros rápidos ao vencedor.
Talvez funcione em algumas partidas. O problema é que, quando o tabuleiro é o mundo real, a vitória de um jogador pode significar um planeta inteiro mais próximo de uma catástrofe.
E, diferente de uma caixa de War que ainda tenho guardada na memória e em algum armário, a geopolítica não vem com instruções de como termina o jogo.
ROSANNA MEDEIROS FERREIRA ALBUQUERQUE
É procuradora do Estado aposentada.

Fonte: Portal CT
