Sem concurso há quase 30 anos, Câmara tem apenas 1 servidor efetivo e caso vai à Justiça
Notícias do Tocantins – Após quase três décadas sem realizar concurso público, a Câmara Municipal de Alvorada virou alvo de uma ação civil pública do Ministério Público do Tocantins (MPTO), que aponta um quadro considerado irregular, inchado por vínculos precários e em desacordo com a Constituição.
A última seleção pública ocorreu em 1999. Desde então, segundo o MPTO, o Legislativo municipal passou a funcionar com base majoritária em contratações sem concurso, o que motivou a atuação do órgão.
Quadro funcional revela distorção
Levantamento com base em dados do Tribunal de Contas do Estado (TCE/TO) mostra um cenário preocupante: dos 40 vínculos funcionais existentes, apenas um servidor é efetivo, o que representa 2,5% do total.
Os demais cargos são ocupados por 19 comissionados e 10 contratados temporários, totalizando 97,5% de vínculos precários — situação considerada irregular quando se trata de funções permanentes da administração pública.
De acordo com o promotor de Justiça André Felipe Santos Coelho, responsável pela ação, o modelo adotado pela Câmara configura uma “inversão absoluta da lógica constitucional”, já que o concurso público deve ser a regra, enquanto cargos comissionados e contratações temporárias são exceções previstas apenas para situações específicas.
Funções permanentes ocupadas de forma irregular
A investigação aponta que servidores temporários estariam exercendo atividades contínuas e essenciais, como vigilância, serviços gerais, recepção e condução de veículos, sem qualquer comprovação de necessidade temporária — o que fere diretamente a legislação.
Outro ponto crítico é o uso indevido de cargos comissionados. A proporção de 19 comissionados para apenas um efetivo levanta suspeitas de desvio de finalidade, já que esses cargos deveriam ser destinados exclusivamente a funções de direção, chefia e assessoramento, e não a atividades técnicas ou operacionais.
Além disso, o MPTO identificou falhas no controle de frequência e produtividade, o que dificulta a fiscalização da jornada e da atuação dos servidores.
Medidas urgentes e prazos definidos
Diante das irregularidades, o Ministério Público acionou a Justiça com uma série de pedidos em caráter de urgência. Entre as principais medidas estão:
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Elaboração de um estudo técnico detalhado sobre a necessidade de pessoal em até 30 dias;
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Proibição imediata de novas contratações temporárias e nomeações comissionadas para funções permanentes;
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Envio de projeto de lei para criação de cargos efetivos e reestruturação do quadro;
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Publicação de edital de concurso público em até 180 dias após aprovação da lei;
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Exoneração de servidores irregulares e extinção de contratos temporários indevidos;
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Implantação de controle de frequência e transparência na gestão de pessoal.
Em caso de descumprimento, o MPTO pede aplicação de multa diária de R$ 2 mil por ato irregular e R$ 5 mil por descumprimento das obrigações judiciais.
Recomendação ignorada
Antes de recorrer à Justiça, o Ministério Público havia expedido uma recomendação em 5 de fevereiro de 2026, orientando a regularização do quadro e a realização de estudo técnico. No entanto, a Câmara Municipal não respondeu ao documento e permaneceu, segundo o MP, em “completo silêncio” por mais de 60 dias.
Impacto e alerta institucional
Para o promotor, a ausência de concursos por quase 30 anos representa uma ruptura grave com os princípios da administração pública, como legalidade, impessoalidade e eficiência. A prática também compromete a igualdade de oportunidades, ao impedir que cidadãos tenham acesso ao serviço público por meio de mérito.
O caso agora aguarda decisão da Justiça e pode obrigar a Câmara de Alvorada a promover uma reestruturação profunda em seu quadro de servidores, corrigindo distorções acumuladas ao longo de décadas.
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Fonte: AF Noticias
