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Opinião | Corrupção e areia movediça: a melhor estratégia é não dar o primeiro passo, ainda que pequeno

Keslon Borges – Economista e Especialista em Gestão Pública (@keslon_borges_oficial)

A corrupção se parece com areia movediça: o primeiro passo pode parecer pequeno, quase inofensivo. O problema é que, depois que se entra, cada concessão torna mais difícil sair.

É assim que sociedades começam a normalizar aquilo que jamais deveria ser normal.

Primeiro, tolera-se o pequeno favorecimento porque “sempre foi assim”. Depois, relativiza-se o nepotismo porque “todo mundo coloca alguém de confiança”. Fecha-se os olhos para o tráfico de influência porque “faz parte da política”. O desvio de recursos públicos ganha uma justificativa conveniente. A lavagem de dinheiro parece distante da vida das pessoas. O peculato vira apenas mais uma manchete no noticiário.

E, pouco a pouco, a indignação vai sendo substituída pela tolerância.

Esse é o perigo da areia movediça.

Ela não precisa nos engolir de uma vez. Basta que percamos a percepção de que estamos afundando.

A corrupção também produz consequências que vão muito além do dinheiro desviado. Cada recurso público roubado carrega consigo uma cadeia de externalidades negativas. O dinheiro que desaparece de uma obra pode significar uma escola que não foi construída, um medicamento que não chegou, uma estrada que permaneceu perigosa ou um serviço público que continuou precário.

O valor do prejuízo não está apenas no que foi roubado, mas também em tudo aquilo que deixou de existir por causa do roubo.

E existe uma consequência ainda mais silenciosa: a corrupção destrói confiança.

Quando o cidadão começa a acreditar que as regras valem apenas para alguns, que relações pessoais importam mais que competência e que influência compra aquilo que deveria ser direito, deteriora-se algo essencial para qualquer sociedade: a confiança nas instituições e na própria ideia de justiça.

Por isso não existe “corrupção aceitável” apenas porque o valor é pequeno.

A areia movediça também não pergunta o tamanho do primeiro passo.

O pequeno desvio tolerado hoje ajuda a construir o ambiente no qual o grande esquema poderá prosperar amanhã. Quando relativizamos o erro de alguém porque gostamos de sua ideologia, partido ou liderança, criamos um precedente perigoso: passamos a julgar a corrupção não pelo ato praticado, mas por quem o praticou.

Nesse momento, os princípios começam a perder para a torcida.

É justamente aí que precisamos ter cuidado.

Combater a corrupção exige a coragem de aplicar a mesma régua moral aos adversários e àqueles que apoiamos. Se algo é errado quando praticado pelo outro lado, não pode se tornar aceitável quando praticado pelo nosso.

Caso contrário, deixamos de defender valores e começamos a defender pessoas.

E quando conscientemente justificamos, normalizamos ou fechamos os olhos para práticas corruptas, contribuímos para o ambiente de tolerância que permite que elas continuem. A omissão social não é juridicamente a mesma coisa que participar de um crime, mas moralmente pode ajudar a criar o terreno em que a corrupção prospera.

Por isso, diante da areia movediça, a melhor estratégia não é descobrir até onde podemos entrar sem afundar.

É não dar o primeiro passo.

Não importa se estamos falando de desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro, peculato, nepotismo, tráfico de influência ou qualquer outra forma de utilização do poder público para benefício indevido.

Corrupção não deve ter partido. Não deve ter ideologia. Não deve ter desculpa conveniente.

Porque uma sociedade não perde seus valores de uma única vez. Ela os perde em pequenas concessões, uma depois da outra.

E talvez essa seja a maior semelhança entre a corrupção e a areia movediça: quando percebemos o quanto afundamos, sair já se tornou muito mais difícil.

Fonte: AF Noticias