
Da aldeia a professor universitário concursado: Gustavo Kanõkrã Xerente abre novo capítulo na UFT
Notícias do Tocantins – Da escola indígena ao magistério superior. A trajetória de Gustavo Kanõkrã Xerente ganhou um novo capítulo histórico com sua chegada à Universidade Federal do Tocantins (UFT). Pertencente ao povo Akwẽ/Xerente, ele foi aprovado no primeiro concurso público realizado pela instituição com edital e perfil específicos para o ingresso de um professor indígena no magistério superior.
Gustavo tomou posse no dia 3 de agosto de 2026. Graduado e mestre em Letras, com formação em Língua Portuguesa e Literatura, iniciou, dois dias depois, sua atuação administrativa junto à Pró-Reitoria de Graduação (Prograd). Desde 17 de agosto, também exerce atividades docentes no Câmpus de Miracema.
Para ele, chegar à universidade como professor representa uma conquista que ultrapassa sua própria trajetória. “Para mim, estar aqui representa muito mais do que uma conquista pessoal. É a possibilidade de mostrar para outros jovens indígenas que a universidade também pode ser um espaço nosso. Quero contribuir para que eles possam ocupar esse espaço sem deixar de lado sua identidade, sua língua e os conhecimentos do nosso povo.”
Atualmente, Gustavo ministra as disciplinas de Sociologia da Educação e Antropologia da Educação no curso de Pedagogia, no Câmpus de Miracema. Também atuará diretamente nos cursos de Pedagogia Intercultural Indígena e Licenciatura Intercultural Indígena, contribuindo para a articulação das ações de formação indígena da Universidade.
Um concurso pensado para ampliar a presença indígena
A chegada de Gustavo representa mais do que a contratação de um novo professor.
O cargo foi criado pela atual gestão da UFT com o objetivo de aproximar a Universidade dos territórios, das realidades e dos saberes indígenas, além de contribuir para a construção de uma política institucional voltada à formação desses estudantes.
A UFT já contou com professores indígenas aprovados em concursos anteriores. O diferencial, desta vez, é que esta foi a primeira seleção realizada pela instituição com edital e perfil exclusivamente destinados ao ingresso de um professor indígena no magistério superior.
Gustavo atuará em diálogo com a Prograd, a Superintendência de Ações Afirmativas e outros setores da Universidade para identificar demandas, dificuldades e caminhos para o aprimoramento das políticas destinadas aos estudantes indígenas.
“Se queremos construir uma universidade acessível aos povos tradicionais, precisamos construir essa política com eles, garantindo que sejam protagonistas da sua própria inserção na universidade. Estamos aprendendo e ensinando juntos, e o professor Gustavo chega para nos ajudar nessa construção”, afirmou a reitora da UFT, Maria Santana.
Da escola indígena à sala de aula da universidade
A formação básica de Gustavo foi realizada integralmente em escola indígena. Ao longo de sua trajetória acadêmica, ele enfrentou desafios relacionados às diferenças linguísticas e culturais entre sua realidade de origem e o ambiente universitário, sem romper os vínculos com os conhecimentos tradicionais do povo Akwẽ/Xerente.
Agora, retorna ao ambiente universitário em uma nova posição: a de professor.
Sua presença abre também uma referência para jovens indígenas que desejam chegar ao ensino superior sem abandonar a própria identidade, a língua e os saberes de seus povos.
Gustavo também participará dos cursos que adotam a pedagogia da alternância, modelo que articula o tempo universidade e o tempo aldeia. Os estudantes alternam períodos de formação acadêmica com momentos de vivência e desenvolvimento de atividades em suas próprias comunidades e territórios.
Nesse processo, o professor terá o papel de aproximar os conhecimentos acadêmicos dos saberes tradicionais e das diferentes realidades vividas pelos povos indígenas.
Para a UFT, sua chegada também amplia o debate sobre ensino, aprendizagem, diversidade, acessibilidade e acolhimento de estudantes oriundos de territórios tradicionais.
A proposta é que a Universidade avance não apenas na presença de indígenas dentro de seus câmpus, mas também na participação desses povos na construção das políticas que afetam sua própria formação.
Ponte entre estudantes indígenas e a Universidade
Além das atividades em sala de aula, Gustavo ficará lotado na Prograd e terá função estratégica na elaboração de uma política de graduação voltada à formação dos docentes que trabalham com estudantes indígenas.
O objetivo é desenvolver práticas pedagógicas que respeitem os saberes tradicionais, fortaleçam o acolhimento e ampliem os processos de inclusão.
O professor também deverá contribuir para estreitar o diálogo entre a Prograd e os estudantes indígenas.
Entre as atribuições previstas está a realização de um diagnóstico sobre o perfil desses acadêmicos em cada câmpus e curso da UFT. A partir desse levantamento, poderão ser elaborados planos de ação e oficinas voltados às necessidades identificadas, com o objetivo de melhorar a experiência dos estudantes indígenas dentro da Universidade.
A trajetória de Gustavo Kanõkrã Xerente passa, assim, a carregar uma simbologia que vai além da sala de aula: alguém que iniciou sua formação em uma escola indígena e agora ocupa o magistério superior, ajudando a construir caminhos para que outros estudantes também possam chegar e permanecer na universidade.
Fonte: AF Noticias
