Professora denuncia injúria racial em escola de Araguaína e relata trauma após ofensas de alunos
Caso reacende debate sobre racismo no ambiente escolar e violência contra professores; dados mostram cenário preocupante no Brasil
O que era para ser apenas mais um trajeto rotineiro virou um episódio de dor, revolta e reflexão em Araguaína. A professora Eliete de Santana, de 50 anos, denunciou ter sido vítima de injúria racial ao passar em frente à Escola Estadual Professor João Alves Batista, na última quarta-feira, 8.
Segundo a educadora, estudantes dentro da unidade passaram a proferir ofensas racistas enquanto ela caminhava pela Rua Ademar Vicente Ferreira.

“Eu vinha andando tranquilamente, exercendo meu direito de ir e vir. Quando passei em frente à escola, ouvi um aluno fazer um barulho como se tivesse se assustado comigo. Os outros começaram a rir. Depois vieram as palavras racistas. Ouvi coisas como ‘preta’, ‘feia’… e mais à frente escutei claramente: ‘ela parece um urubu’”, relatou.
A professora contou que, inicialmente, tentou ignorar a situação, mas o impacto emocional foi imediato.
“Na hora, segui meu caminho, mas aquilo ficou na minha cabeça. Quando cheguei ao cartório, percebi que não podia deixar aquilo passar. Voltei até a escola para pedir respeito. Encontrei alguns deles e, mesmo assim, houve deboche”, disse.
Ela procurou a direção da unidade, que acolheu a denúncia, e registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil do Tocantins.
Trauma e marcas emocionais
Com décadas dedicadas à educação pública e próxima da aposentadoria, Eliete afirma que o episódio deixou consequências profundas.
“Fiquei com trauma. Não consigo dormir direito. Isso mexe com a nossa autoestima, com a saúde emocional. A gente passa a ter medo, a se sentir vulnerável”, desabafou.
Mãe de quatro filhos, sendo dois com necessidades especiais, ela destacou que o racismo vai além da ofensa verbal.
“São palavras carregadas de ódio, de intolerância. Elas doem na alma. Você está andando na rua e, de repente, é reduzida a isso. É desumano”, afirmou.
Para a professora, o fato de a agressão ter ocorrido em frente a uma escola torna a situação ainda mais grave.
“A escola precisa ser um espaço de transformação, de respeito. Racismo se combate com educação. Quando isso parte de dentro da escola, é muito preocupante”, completou.
Medidas adotadas
Em nota, a direção da Escola Estadual Professor João Alves Batista informou que identificou os alunos envolvidos e aplicou suspensão de três dias como medida disciplinar.
Por se tratar de menores de idade, as identidades não foram divulgadas, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente.
O Portal Imediato também entrou em contato com a Secretaria da Educação do Tocantins para saber quais medidas vêm sendo adotadas para combater o racismo nas escolas da rede estadual. Até o momento, não houve retorno.
A reportagem ainda tentou contato com a Polícia Civil para obter informações sobre o andamento do caso, mas também aguarda posicionamento.
Violência contra professores: cenário alarmante
O caso não é isolado. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico colocam o Brasil entre os países com maiores índices de violência escolar contra professores no mundo.
Levantamentos apontam que:
Cerca de 10% das escolas brasileiras registram episódios semanais de intimidação ou abuso verbal contra docentes, mais que o triplo da média internacional
Em outro estudo, 12,5% dos professores afirmaram sofrer agressões verbais ou intimidação de alunos ao menos uma vez por semana, o maior índice entre os países analisados
Diretores relatam que 28% das escolas enfrentam situações frequentes de bullying, o dobro da média global
Quando o recorte é racial, a situação se agrava. Professores negros relatam com mais frequência episódios de discriminação, ofensas e deslegitimação dentro do ambiente escolar, reflexo direto de um racismo estrutural ainda presente na sociedade brasileira.
Especialistas apontam que a violência contra docentes não se limita a agressões físicas, mas inclui ataques psicológicos, humilhações e discriminação, criando um ambiente de adoecimento e insegurança.
Reflexo de um problema estrutural
Para especialistas em educação, episódios como o vivido pela professora Eliete escancaram uma realidade mais profunda: a normalização da violência e do desrespeito dentro das escolas.
A falta de políticas efetivas de prevenção, somada à ausência de canais de acolhimento e à sobrecarga dos profissionais da educação, contribui para um cenário considerado crítico.
Posicionamento
O Portal Imediato se solidariza com a professora Eliete de Santana e reforça que não há espaço para racismo ou qualquer forma de discriminação.
Casos como esse não podem ser tratados como situações isoladas. Exigem resposta firme, ações educativas e responsabilização.
A cobrança agora é clara: que as autoridades se manifestem e que medidas concretas sejam adotadas para garantir respeito dentro e fora das salas de aula.
Por: Warley Costa | Portal Imediato.
Fonte: Portal Imediato
