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Boca seca, mau hálito e gosto metálico podem estar ligados a problemas renais, alerta nefrologista

Notícias do Tocantins – Gosto metálico persistente, mau hálito que não desaparece mesmo após a escovação e sensação de boca seca durante todo o dia podem ser mais do que um incômodo. Em pacientes com doença renal crônica, esses sinais podem estar ligados ao acúmulo de ureia no organismo, substância que os rins já não conseguem eliminar de maneira adequada.

Ao chegar à saliva, a ureia é transformada em amônia pelas bactérias presentes na boca, provocando alterações no paladar e no hálito.

Pacientes com problemas renais frequentemente apresentam halitose e sentem o gosto alterado. Como os rins não removem a ureia do sangue de forma eficiente, a concentração dessa substância aumenta na saliva e vira amônia”, explica a nefrologista e diretora clínica da Fundação Pró-Rim, Marina Abritta Hanauer, CRM-SC 15178 e RQE 16510.

A relação, porém, não acontece apenas em um sentido. Assim como o comprometimento dos rins pode afetar a saúde bucal, doenças na boca também podem aumentar a inflamação no organismo e agravar problemas renais.

Inflamação na gengiva pode atingir os rins

A periodontite, inflamação persistente que compromete a gengiva e as estruturas de sustentação dos dentes, tem sido associada a um risco maior de desenvolvimento da doença renal crônica.

Metanálises publicadas nas revistas científicas Nephrology e World Journal of Clinical Cases apontam aumento de risco entre 54% e 60%. Já um estudo publicado no Journal of Periodontology, que acompanhou centenas de pessoas por quase cinco anos, identificou risco quatro vezes maior de perda da função renal entre pacientes com periodontite avançada.

Os dados mostram uma associação entre as duas condições, mas não significam que toda pessoa com inflamação gengival desenvolverá doença renal. “Existe uma relação bidirecional: a DRC afeta a boca, e a doença na boca também afeta o rim”, resume Marina.

O processo pode começar quando bactérias e toxinas presentes na gengiva inflamada chegam à corrente sanguínea. Essa circulação de agentes infecciosos desencadeia uma resposta inflamatória em diferentes partes do corpo e pode contribuir para danos aos vasos dos rins.

O aumento do estresse oxidativo também reduz as defesas do organismo e pode sobrecarregar ainda mais um sistema renal já comprometido.

Doença renal favorece tártaro e perda óssea

No sentido contrário, a doença renal também deixa a boca mais vulnerável. O acúmulo de toxinas, as alterações na flora bucal e a redução da imunidade podem favorecer infecções e outros problemas odontológicos.

A saliva dos pacientes renais costuma apresentar maior concentração de ureia e fósforo e ficar mais alcalina. Essa combinação favorece a formação rápida de tártaro, inclusive em pessoas que mantêm uma rotina regular de escovação.

Nos estágios mais avançados da doença, também podem ocorrer alterações na estrutura óssea do maxilar. Em situações graves, os dentes podem ficar amolecidos e, em casos raros, ocorrer fraturas espontâneas.

Atendimento odontológico exige cuidados especiais

A atenção deve ser redobrada quando um paciente renal precisa passar por tratamento odontológico. Uma infecção dentária, como um abscesso, pode lançar bactérias na corrente sanguínea e, em situações mais graves, evoluir para sepse ou endocardite.

Apesar de rara, a endocardite é uma complicação grave e pode apresentar mortalidade próxima de 20%, conforme a especialista. “A prevenção desse quadro é uma prioridade absoluta para o cirurgião-dentista”, alerta Marina.

Pacientes que fazem hemodiálise precisam seguir protocolos específicos. O atendimento odontológico deve ocorrer, preferencialmente, nos dias em que não há sessão de diálise.

Antes de determinados procedimentos, também podem ser necessários exames como creatinina, taxa de filtração glomerular e coagulograma.

O uso de medicamentos exige cautela. Alguns anti-inflamatórios podem ser tóxicos para os rins, enquanto antibióticos podem precisar de ajuste na dosagem.

Outro cuidado envolve a fístula arteriovenosa usada na hemodiálise. O braço onde está localizado o acesso não deve receber o aparelho de pressão arterial, nem mesmo em uma consulta odontológica de rotina.

Cuidar da gengiva ajuda a reduzir a inflamação

O tratamento da periodontite pode diminuir marcadores inflamatórios e contribuir para evitar a progressão de danos associados à doença renal.

Isso não significa, porém, que o tratamento odontológico possa recuperar uma função renal que já foi perdida. “O cuidado com a gengiva pode estagnar a progressão da doença renal, mas não é isso que vai melhorar a função dos rins”, pontua Marina.

Pessoas com diabetes ou hipertensão precisam de atenção ainda maior. As duas condições estão entre os principais fatores de risco tanto para doenças renais quanto para problemas periodontais.

Quem tem diabetes ou hipertensão precisa cuidar da boca com ainda mais rigor, pois está lidando com os dois lados do mesmo problema”, ressalta a médica.

Para a nefrologista, a prevenção deve começar antes do surgimento de complicações. “Não é preciso esperar aparecer um sintoma no rim para começar a se cuidar. A escova de dentes, o fio dental e a visita ao dentista são armas contra uma inflamação que, sem a gente perceber, pode estar corroendo muito mais do que o sorriso”, afirma.

Quatro cuidados importantes

Mantenha a higiene diária: escove os dentes pelo menos três vezes ao dia e use fio dental diariamente.

Procure o dentista regularmente: faça uma avaliação ao menos uma vez por ano, mesmo sem dor ou sangramento.

Observe os sinais de alerta: sangramento na gengiva, mau hálito persistente, gosto metálico e dor ao mastigar precisam ser avaliados.

Informe seu histórico de saúde: pacientes renais, diabéticos ou hipertensos devem comunicar essas condições ao dentista antes de qualquer procedimento.

Fonte: AF Noticias