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Do crack ao recomeço: 18 homens recomeçam a própria história após tratamento em Araguaína

Notícias do Tocantins – Aos poucos, a imagem refletida no espelho deixou de ser a de um homem consumido pela dependência química para dar lugar a alguém disposto a recomeçar. A trajetória de Neumarques Correia Sá é marcada por perdas, sofrimento e superação. Após mergulhar no universo das drogas ainda na adolescência, ele está entre os 18 homens que concluíram o tratamento na Unidade de Acolhimento Adulto (UAA) de Araguaína, referência no atendimento a dependentes de álcool e outras drogas no Tocantins.

O primeiro contato com as drogas aconteceu quando ele ainda era menor de idade. Influenciado por amizades, começou usando maconha. Com o passar do tempo, vieram o álcool e, posteriormente, o crack, substância que o levou ao momento mais difícil de sua vida.

“Minha vida estava um caos, além de eu estragar a minha, estava prejudicando demais a da minha mãe. Eu me olhava no espelho e me via acabado. As pessoas não respeitam o usuário de drogas, discriminam, eu não conseguia mais arrumar emprego. Eu sofria e minha mãe sofria também”, relembrou.

Quando percebeu que havia chegado ao limite, decidiu buscar ajuda. A escolha o levou à Unidade de Acolhimento Adulto, onde permaneceu durante seis meses em tratamento intensivo voltado à recuperação física, emocional e social.

“Aqui nós somos muito bem acolhidos, temos médicos, psicólogos, temos todo o apoio que precisamos. Não existe um lugar no Tocantins igual esse aqui, o tratamento aqui é diferenciado”, afirmou.

Formatura marca nova etapa de vida

A cerimônia de certificação dos acolhidos foi realizada no último domingo (14), reunindo familiares, amigos e autoridades. O evento simbolizou não apenas a conclusão de uma etapa terapêutica, mas também a reconstrução de histórias que pareciam perdidas para a dependência química.

Segundo o coordenador da UAA, Wagner Enoque, muitos usuários chegam ao local acompanhados de familiares emocionalmente esgotados e sem perspectivas de mudança.

“É nossa missão resgatar os valores que um dia foram perdidos. Nós fazemos um trabalho diário de atenção com essas pessoas, de qualificá-las, de levantar a autoestima por meio de uma fala positiva, dizendo que vai dar certo, que o tratamento é eficaz e que elas terão a oportunidade de voltar a viver com qualidade”, destacou.

Trabalho, qualificação e reconstrução de vínculos

Durante os seis meses de acolhimento, os participantes desenvolvem atividades que vão além do tratamento clínico. Eles participam de ações laborais, cultivam hortas, auxiliam na manutenção do pesqueiro da unidade e têm acesso a cursos profissionalizantes, fortalecendo a preparação para o retorno ao mercado de trabalho e à convivência familiar.

Mantida pela Prefeitura de Araguaína, por meio da Secretaria Municipal da Saúde, a Unidade de Acolhimento Adulto funciona desde 2017 e já atendeu mais de 430 homens em situação de dependência de álcool e outras drogas.

O acesso ao serviço é voluntário e gratuito. O encaminhamento ocorre por meio do CAPS AD III (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas), responsável pela avaliação inicial e pela indicação do acolhimento.

A secretária municipal da Saúde, Dênia Rodrigues Chagas, ressaltou que o trabalho desenvolvido pela unidade envolve não apenas os pacientes, mas também seus familiares.

“Isso mostra a preocupação e a valorização que o Município dá aos acolhidos. Eles permanecem na UAA durante seis meses assistidos por uma equipe multidisciplinar composta por médicos, psicólogos, terapeutas e enfermeiros. Não tratamos apenas o acolhido, mas também a família, que muitas vezes sofre junto durante todo esse processo”, afirmou.

Recuperação continua após a alta

Apesar da conclusão do tratamento, o acompanhamento permanece. Segundo Wagner Enoque, a recuperação da dependência química exige atenção permanente e uma rede de apoio sólida para evitar recaídas.

“Muitas famílias se culpam quando um de seus membros entra no mundo das drogas. Por isso, oferecemos acompanhamento contínuo e trabalhamos para fortalecer os vínculos familiares. O tratamento não termina em seis meses. É um compromisso para toda a vida, e o apoio da família é fundamental”, explicou.

Agora longe das drogas, Neumarques olha para o futuro com esperança renovada. Entre os planos está voltar a trabalhar como serralheiro e pintor, reconstruir sua vida profissional e retribuir o apoio recebido da mãe durante os anos mais difíceis.

“Daqui para frente, é erguer a cabeça, procurar um emprego e me manter na igreja com minha mãe. Ela me criou sozinha, cuidou de mim até hoje. Agora chegou a minha vez de cuidar dela”, concluiu.

Serviço municipal já ajudou mais de 430 dependentes químicos

Unidade de Acolhimento Adulto de Araguaína forma nova turma

Fonte: AF Noticias