
Entre o céu e a terra, um quadro
Quem pudera viver entre o céu e a terra. Nunca achei um jeito humano de fazer isso por inteiro, mas encontrei o que mais se aproxima: mergulhar em arte.
Ouvir boas músicas, assistir bons filmes, ler bons livros, frequentar galerias… é assim que alimento a alma. Dizer que busco Deus nessas horas seria quase redundante, porque não O encontro só nas igrejas. Encontro o divino, por exemplo, numa exposição, quando uma obra me olha de volta quase instantaneamente.
Esses dias estive na CASACOR Tocantins, a mostra de arquitetura, design, paisagismo, cultura e arte que ocupa o Orquidário de Palmas, na 402 Sul, até o dia 10 de outubro. O tema deste ano é “Mente e Coração”, e ele vem de encontro a questões do nosso tempo: a casa como abrigo de quem vive cercado de telas, notificações e pressa; o lugar onde a gente se recolhe para voltar a se ouvir. Fiquei encantado com todos os ambientes, alguns abertos, outros fechados, e foi justamente essa alternância que me mostrou como o Orquidário foi uma escolha certeira porque o Cerrado não é cenário da mostra, é parte dela.
Parabenizo os organizadores. Tudo muito lindo. Homenagens a povos indígenas e quilombolas; o barro, o capim-dourado, a madeira, a pedra, a palha… nossos materiais nas mãos dos nossos profissionais, contando do nosso povo. O paisagismo e a arte fazem mais do que conversar: se entrelaçam, se completam, um está verdadeiramente ligado ao outro. Até as árvores, vestidas de luz, são parte essencial da exposição.
Foi ali, no ambiente que abriga o gabinete do Prefeito, que encontrei um quadro que me atravessou… ou fui eu que o atravessei?

Fico com a segunda hipótese, porque fui transportado para um lugar mental que me é muito familiar: o universo de Fernando Costa Filho. Nele, mente e coração não disputam espaço. Quando se encontram, viram pura arte. E que lugar melhor para um quadro assim do que uma mostra batizada com esse mesmo nome?
É no universo de Fernando que imerjo. Em tudo que é meu há um pouco dele. Suas obras me abraçam e me levam a um território onde a mente e a arte se tornam uma coisa só. É rio, é madeira, é sagrado e profano, frio e quente, suave e, ao mesmo tempo, impactante. É o contrário que se reconcilia numa normalidade quase natural.
Esse é Fernando. Sua arte me acompanha por onde ando. Não falo só das telas do meu acervo pessoal, nem das que estão expostas no próprio Tribunal de Contas do Estado do Tocantins. Falo das que habitam a minha mente, e essas eu carrego sem moldura.
Falar de Fernando é até engraçado. De um lado, o amigo com quem converso, tranquilamente, sobre os mais diversos aspectos da vida. De outro, um artista de tamanha grandeza que suas obras chegaram à novela “Vale Tudo” (a original, de 1988, não a versão recente). O mesmo coração que divide comigo uma conversa de fim de tarde é o que carrega dentro um universo artístico inteiro.
Por isso Fernando é tão ímpar.
Fernando é de Goiânia, de 1948, mas a visão artística dele se desenvolveu mais ainda em Brasília, quando menino, no começo dos anos 1960, num cenário onde a capital era quase só horizonte e cimento fresco. Talvez venha daí esse gosto pelo espaço aberto que as telas dele nunca perderam.
Depois, o país inteiro virou ateliê. São Paulo, em 1971, onde a pintura aprendeu a dividir a mesa com a publicidade e o design gráfico, e onde ele descobriu que o traço pode ser preciso sem deixar de ser livre. O Rio, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, com a mata entrando pelas janelas. Vieram o Museu de Arte Moderna do Rio, o Museu Nacional de Belas Artes, as galerias de São Paulo e de Brasília, e um Prêmio Aquisição na Mostra de Desenho Brasileiro, em Curitiba, em 1980.
Podia ter ficado onde o mercado de arte é mais farto. Voltou. Em 1981, em Goiânia, fundou e dirigiu o Museu de Arte Municipal, como quem devolve à própria cidade o que ela lhe deu de graça. E o mundo continuou a chamá-lo mesmo assim: em 1985, uma obra sua atravessou o planeta e foi parar em Tóquio, numa mostra de belas artes Brasil-Japão. Já em 1989 e 1992, expôs em Dijon e Paris, na França. O menino do Cerrado tornou-se conhecido do outro lado da Terra.
E o Tocantins também entrou nesse mapa. Por três vezes o nosso estado recebeu exposições suas, e eu guardo com carinho especial a de 2012, quando o Palácio Araguaia abriu suas portas para receber as pinturas que Fernando fez sobre o Jalapão. Ver as dunas, as veredas e o capim-dourado pelos olhos de um artista desse nível foi como ganhar de presente uma paisagem que a gente achava que já conhecia. Ele pintou com os olhos de um goiano-tocantinense.
A crítica já o definiu como dono de uma arte ágil, sintética e dramática. É verdade. Mas eu, que não sou crítico, prefiro dizer do meu jeito: Fernando pinta como quem escuta. E o que ele escuta é aquilo que a gente nem sabia que estava dizendo.
Em junho deste ano, em Goiânia, vi uma obra sua na parede do Centro Cultural da UFG, na mostra “Essa grande liberdade”. Ele estava ao meu lado, caminhando devagar, olhando o próprio quadro como se fosse de outro. Essa é uma daquelas coisas que nenhuma biografia alcança.
E que bom que um quadro seu, capaz de guardar numa tela o Encontro das Águas, está aqui conosco, na CASACOR, entre o barro e o capim-dourado, até o dia 10 de outubro.
Volto ao começo. Viver entre o céu e a terra talvez seja isso: parar diante de uma tela e, por um instante, não saber mais se é a gente que olha ou se é ela. Fernando me deu esse instante muitas vezes. Deu de novo, agora, no Orquidário. Quem puder, vá ver. Leve a mente, claro. Mas vá sobretudo com o coração, porque é por ele que um quadro entra.
Fonte: José Wagner Praxedes
