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Opinião | O 7 de Setembro não cabe na propaganda de ninguém, por Augusto César Ferreira Barbosa

Por Augusto César Ferreira Barbosa | Mestre em Ensino de História

“Uma festa para o povo, nunca uma festa do povo

José Murilo de Carvalho (1939-2023)

O Brasil celebra em 7 de setembro de 2026 os 204 anos de sua Independência. A Independência brasileira virou mito, pintura e instrumento político. O grande desafio atual é impedir que a memória nacional seja transformada em propriedade de governos, partidos ou ideologias.

Todo 7 de Setembro é uma disputa pelo passado.

Enquanto bandeiras são hasteadas e desfiles tomam as ruas, outra batalha acontece no campo da memória: quem escolhe os personagens, os símbolos e os significados da Independência também disputa a maneira como imaginamos o Brasil. Isso não é novidade.

As grandes efemérides nacionais sempre foram utilizadas para produzir patriotismo e construir uma determinada ideia de nação. O problema surge quando a celebração substitui a História e o passado passa a funcionar como propaganda do presente. O 7 de Setembro é um caso exemplar.

A imagem que aprendemos na escola parece definitiva: D. Pedro, montado em um grande cavalo – seu alazão -, cercado por soldados, ergue a espada às margens do rio Ipiranga e proclama a Independência à Nação. A cena é familiar. O problema é que ela nunca aconteceu exatamente daquela maneira.

Figura 2 - Independência ou Morte! (O Grito do Ipiranga). Pedro Américo, 1888, Brasil.

É importante ressaltar que a obra: “Independência ou Morte”, de italiano Pedro Américo (1843-1905), foi concluída somente em 1888, ou seja, 66 anos depois do episódio que representa. Não é uma fotografia de 1822. É uma interpretação construída para produzir um “documento monumento” – segundo os escritos do historiador francês Le Goff.

A cena é emblemática e hipnotizante: os cavalos, os uniformes, a composição da cena e a posição dos personagens foram organizados para transformar um acontecimento político em um momento heroico. No centro está D. Pedro. Ao redor, quase como figurantes, aparecem aqueles que deveriam compor a sociedade brasileira. A mensagem é poderosa: a História seria feita por um “grande homem”.

Mas a Independência foi muito maior do que isso.

O processo que levou à separação política de Portugal envolveu disputas entre grupos, interesses econômicos, conflitos regionais e diferentes projetos para o futuro do Brasil. Houve participação de militares, comerciantes, proprietários, trabalhadores, mulheres, negros, indígenas e inúmeros outros sujeitos que raramente aparecem no centro das representações tradicionais ou são retratados nas aulas de História ou na própria mídia.

Há ainda uma ironia pouco lembrada: em 1822, o episódio do Ipiranga não possuía a centralidade que ganhou posteriormente. Naquele ano, a monarquia celebrou sobretudo a aclamação de D. Pedro, em 12 de outubro, e sua coroação, em 1º de dezembro. O 7 de Setembro foi adquirindo importância nos anos seguintes, especialmente a partir da década de 1830. Isso não torna, repito, o episódio menos importante, contudo, mostra apenas que as datas nacionais também são construções históricas.

A memória muda. Os símbolos mudam. As sociedades mudam.

Em um primeiro momento, a data de 1922 representa esse primeiro marco de mudança. Durante o centenário da Independência, o governo de Epitácio Pessoa (1865-1942) promoveu grandes comemorações e utilizou museus, exposições, arquitetura e obras de arte para construir uma imagem grandiosa da nação. São Paulo também disputou o protagonismo da efeméride, associando o Ipiranga à identidade paulista.

Já em 1972, durante a Ditadura Militar, os 150 anos da Independência receberam outra leitura. A celebração foi associada às Forças Armadas, à ordem e ao patriotismo, enquanto o país vivia sob censura e repressão.

A fórmula se repetia: o passado era mobilizado para legitimar o presente.

É por isso que o uso político do 7 de Setembro precisa ser observado com atenção. Símbolos nacionais pertencem à sociedade. Não são patrimônio de governos. Bandeiras, hinos, monumentos e datas cívicas não deveriam servir como instrumentos para estabelecer quem é mais patriota ou quem possui o monopólio do amor pelo país.

Também é perigoso transformar D. Pedro I em personagem de disputas políticas contemporâneas. O Brasil de 1822 não pode ser utilizado como uma caricatura do Brasil atual. Contextos históricos diferentes não podem ser simplesmente colados uns aos outros para produzir heróis convenientes.

Isso não é revisionismo, mas sim anacronismo. Revisionar a História é necessário. A pesquisa histórica existe justamente para questionar versões consolidadas, investigar novos documentos e recuperar personagens que foram esquecidos. Mas existe uma diferença fundamental entre revisar e manipular. O historiador pergunta; a propaganda, por sua vez, responde antes mesmo de investigar.

É nesse ponto que precisamos recuperar o sentido civil do 7 de Setembro.

A Independência não deve ser reduzida a uma parada militar. Patriotismo não se mede pelo tamanho de um desfile, pela quantidade de bandeiras ou pelo volume dos discursos. Uma sociedade independente é aquela capaz de pensar criticamente sobre sua própria história. Porque a Independência também é cidadania.

É liberdade de expressão. É participação política. É direito à memória. É respeito às instituições. É capacidade de discordar sem transformar o adversário em inimigo da pátria. Por isso, talvez a melhor maneira de celebrar o 7 de Setembro seja olhar novamente para a pintura de Pedro Américo. Não apenas para o príncipe no centro, mas para as margens: “Quem aparece? Quem desaparece? Quem observa? Quem foi transformado em detalhe? Quem ficou completamente fora do quadro?”. Essas perguntas revelam mais sobre a História do Brasil do que a repetição automática de uma cena heroica.

Por fim, é importante ressaltar que o passado repousa na memória de um povo; a História se revela na busca por suas verdades; e o 7 de Setembro permanece como patrimônio de todos os que fazem do Brasil uma nação.

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Augusto César Ferreira Barbosa, professor de História na rede estadual de Educação (SEDUC/TO), Mestre em Ensino de História (UFT), Historiador (UFT) e Pedagogo (UNIBF).

Fonte: AF Noticias