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Tocantins: A Janela que se Abriu para o Mundo

Aos 38 anos do Estado

A formação de quem somos é marcada por datas sem as quais a gente simplesmente não existiria como existe. Momentos que nos transformam de um jeito que só entendemos por completo anos depois. O 5 de outubro de 1988 é exatamente isso para mim e para todos os tocantinenses, de nascença ou de coração. Depois de quase dois séculos de luta, o Tocantins deixou de ser um sonho guardado no peito do povo e virou nome no mapa.

Talvez a palavra “emancipação”, bonita, de jurista, soasse estranha para muita gente naquele norte goiano, onde eu andava no início da década de 1980, de cidade em cidade, tentando acender esse sentimento no coração das pessoas. Mas, se havia algo que o povo sabia, era o que queria: uma vida melhor. Queria estrada, escola, água limpa. Queria ser visto, lembrado, cuidado.

Siqueira Campos tinha conhecimento disso melhor do que ninguém. No seu primeiro pronunciamento como governador, em Miracema (capital provisória), naquele 1º de janeiro de 1989, ele não falou de glória. Falou de gente. Disse que ouvira, por vinte e cinco anos, “a súplica e o clamor tocantinenses”, e que sua missão era responder a esse clamor “por trabalho, por saúde, por teto, por terra, por instrução”. Falou também que o Tocantins seria transformado num “grande distrito agro mineral e industrial”. Naquela manhã, com o Estado ainda sem prédios, sem quadro de servidores e quase sem caixa, aquilo soava como promessa de sonhador. Trinta e oito anos depois, soa como profecia.

Porque a janela do desenvolvimento, que naquele janeiro estava apenas entreaberta, foi se abrindo. Devagar, como as coisas verdadeiras se abrem. E hoje, quando olho por ela, vejo um Estado que exporta grãos e carne para o mundo, que tira do chão o calcário que corrige a terra do Brasil inteiro, que arranca do Norte, região do Bico do Papagaio, o cristal e o quartzo que brilham em vitrines distantes. Vejo em Almas, que os antigos já chamavam de capital do ouro, investimentos que nossos avós não saberiam nem contar. Vejo Monte do Carmo, às vésperas de abrigar a maior mina de ouro que o Tocantins já viu. Vejo os nossos rios, que sempre deram peixe para a mesa do ribeirinho, começando a dar tilápia para o mercado de fora, com pesquisa, com técnica, com futuro.

E vejo o sol. Ah, o nosso sol. Aquele mesmo que castiga o operário na construção, que racha o barro das estradas de chão, que faz o forasteiro desistir. Pois o Tocantins aprendeu a fazer do sol uma riqueza. Hoje ele acende usinas, abastece prédios públicos, economiza dinheiro do povo e coloca o nosso Estado entre os que melhor aproveitam a energia mais limpa que existe. Siqueira dizia que esta terra tinha “imenso potencial de riqueza”. Ele não imaginava, talvez, que uma dessas riquezas estaria bem ali, em cima da cabeça de todos nós, o tempo inteiro.

Vejo também o que não se exporta, mas se compartilha. O Jalapão, com suas dunas douradas e seus fervedouros onde a água não deixa ninguém afundar, como se a própria terra insistisse em nos manter de pé. O Cantão, onde o cerrado, a Amazônia e o Pantanal se encontram e conversam. Os rios do Sudeste, límpidos, correndo por entre serras que guardam segredos de dois séculos. E o Araguaia e o Tocantins, que atravessam o Estado de norte a sul e, de julho a setembro, devolvem as praias que a cheia esconde durante o resto do ano, chamando milhares de visitantes para as suas areias. Gente do mundo inteiro vem ver o que a gente sempre teve e nem sempre soube valorizar. O turismo virou uma das nossas economias mais fortes, e virou porque o Tocantins é, antes de tudo, bonito. Isso Siqueira já sabia. Pedia à imprensa, em 1989, que deixasse de lado o governador e divulgasse, “pelo amor de Deus, o nosso Tocantins, seus vales úmidos e férteis, de indescritível beleza”.

Nada disso é acaso. Deus colocou o Tocantins no centro do Brasil, e Siqueira foi um dos primeiros a entender o que isso significava. Mandou estudar o Estado inteiro, palmo a palmo, para saber onde estava cada vocação, cada jazida, cada vale fértil. Estudou a navegação do Araguaia e do Tocantins, sonhando com barcaças descendo até os portos do Norte, levando a produção do interior a custo de rio, não de caminhão. Falava de transformar o coração do país num grande aeroporto de cargas, de onde o Brasil se distribuiria para si mesmo. Muita gente achou exagero, no entanto; eu, que convivi com ele, sei que não era. Ele desenhava o futuro com quarenta anos de antecedência e tinha paciência de quem bem sabe que semente boa demora, mas um dia floresce.

E a lógica dele era simples, quase de pai de família: à medida que o desenvolvimento chegasse, a vida das pessoas melhoraria. Não o contrário. Não era o progresso pelo progresso. Era estrada para o menino chegar à escola, era emprego para o pai voltar para casa com dignidade, era energia para a mãe não cozinhar mais no escuro. Tudo o que conquistamos nesses trinta e oito anos, e conquistamos muito, tem de ser medido por essa régua. E por essa régua, o Tocantins cresceu.

Mas não escrevo hoje só para olhar para trás. Escrevo porque acredito, com a mesma fé daquele janeiro de 1989, que o melhor do Tocantins ainda não aconteceu. Somos um Estado jovem. Trinta e oito anos, na vida de um povo, é a idade em que se tem força e já se tem juízo. Temos terra, temos água, temos sol, temos minério, temos posição geográfica, temos uma gente trabalhadora e generosa que nunca desistiu de nada. Temos, sobretudo, um projeto. Um projeto que Siqueira deixou desenhado e que cabe a nós, a cada geração, tirar do papel um pouco mais.

A janela está aberta. Pela primeira vez em dois séculos, o Tocantins olha para o mundo e o mundo olha de volta. O que vamos fazer com essa vista é a pergunta que devemos nos fazer neste 5 de outubro. Eu confio na resposta porque conheço esse povo, porque vi essa terra nascer do nada e virar Estado, e porque aprendi com o amigo cearense do Crato que sonho, quando é sonhado por muitos, deixa de ser sonho e vira destino.

Ele encerrou aquele discurso de posse com três frases curtas que nunca me saíram da cabeça. “Vamos à luta! Esta Terra é nossa. Muito obrigado.”

Trinta e oito anos depois, eu só consigo repetir. Esta terra é nossa. E o melhor dela ainda está por vir.

Feliz aniversário, Tocantins.

Fonte: Portal José Wagner Praxedes