AraguaínaDestaque

Clínica renal cobra R$ 1 milhão do Governo do Tocantins; atraso ameaça 149 pacientes, diz ABCDT

Notícias do Tocantins – O atendimento de 149 pacientes que dependem de diálise no Tocantins pode ser comprometido por atraso nos pagamentos dos serviços renais. O alerta foi feito pela Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante, a ABCDT. Segundo a entidade, o Instituto de Nefrologia aguarda cerca de R$ 1 milhão do Governo do Estado pelos atendimentos realizados em março e abril de 2026.

As informações sobre os valores pendentes, a situação financeira da unidade e os possíveis riscos ao atendimento foram repassadas pela própria associação. Segundo a ABCDT, o instituto está funcionando sem contrato vigente desde julho de 2025 e recebendo por meio de Reconhecimento de Dívida, procedimento administrativo utilizado para pagar serviços prestados sem cobertura contratual regular.

A entidade afirma ainda que os recursos federais destinados ao custeio da diálise já teriam sido transferidos ao Governo do Tocantins, mas ainda não chegaram à clínica responsável pelo atendimento dos pacientes. Essa informação, conforme o documento divulgado, foi fornecida pela própria unidade à associação.

Clínica teria esgotado recursos próprios

Segundo a ABCDT, os proprietários do Instituto de Nefrologia do Tocantins vêm utilizando recursos próprios para manter a clínica em funcionamento, mas a capacidade financeira da unidade teria chegado ao limite.

A associação relata dificuldades para pagar os salários de 47 colaboradores, honorários médicos e fornecedores. Alguns credores, ainda conforme a entidade, já teriam iniciado medidas de cobrança contra a instituição.

Diferentemente de consultas, exames ou cirurgias eletivas que podem eventualmente ser remarcados, a diálise é um tratamento contínuo. Pacientes com doença renal crônica normalmente precisam realizar três sessões por semana para manter as funções vitais do organismo.

Por isso, qualquer desorganização financeira capaz de reduzir sessões, atrasar a compra de insumos ou provocar a paralisação de uma clínica representa risco imediato aos pacientes.

Cofinanciamento estadual também estaria atrasado

Além dos aproximadamente R$ 1 milhão relacionados às faturas de março e abril, a ABCDT afirma que o Tocantins também estaria atrasando o pagamento do cofinanciamento estadual da terapia renal substitutiva.

O estado possui uma complementação equivalente a 12,5% do valor da produção realizada pelas clínicas. Contudo, segundo a associação, até mesmo esse pagamento adicional estaria ocorrendo sem regularidade, aprofundando as dificuldades financeiras dos prestadores.

A entidade sustenta que o problema é agravado pela defasagem da tabela federal do SUS. Estudos técnicos citados pela ABCDT indicam uma diferença de aproximadamente 38% entre o valor pago e o custo real da hemodiálise.

A associação também afirma que, embora o Ministério da Saúde transfira os recursos federais regularmente, há estados e municípios que não repassam o dinheiro às clínicas dentro do prazo. Conforme a entidade, a legislação determina que a transferência aos prestadores ocorra em até cinco dias úteis após o recebimento pelo gestor público.

Associação cobra regularização

A ABCDT informou que acompanha a situação junto às autoridades estaduais e cobra três providências: o pagamento imediato dos valores pendentes, a formalização de um contrato com a clínica e a criação de condições financeiras que garantam a continuidade do atendimento aos 149 pacientes.

Para a entidade, a discussão não envolve apenas a situação econômica de uma empresa, mas a manutenção de um tratamento que não pode ser interrompido. A associação alerta que, caso uma clínica deixe de funcionar, não há uma rede de unidades preparada para absorver imediatamente todos os pacientes renais.

Problema se repete há anos

O alerta não representa um caso isolado. O atraso no pagamento dos serviços de hemodiálise tem sido assunto recorrente no Tocantins nos últimos anos, com sucessivas denúncias sobre dívidas, falta de contrato, dificuldades para manter insumos e risco de interrupção do atendimento.

O AF Notícias acompanha o problema há anos. Em agosto de 2019, o portal mostrou que representantes do Instituto de Doenças Renais do Tocantins, em Araguaína, recorreram à Câmara Municipal para cobrar pagamentos atrasados. Na época, a instituição afirmava que estava havia mais de seis meses sem receber corretamente os recursos e que poderia fechar as portas, afetando mais de 150 pacientes.

A situação voltou a ganhar destaque em dezembro de 2025. Conforme denúncia divulgada pelo AF Notícias, outra unidade de hemodiálise de Araguaína estava havia quatro meses sem receber repasses e acumulava mais de R$ 2 milhões em valores pendentes. A clínica atendia 154 pacientes e realizava aproximadamente 1.550 sessões mensais.

Na ocasião, o diretor da unidade afirmou que o cenário repetia uma crise registrada em 2020, quando os pagamentos também teriam ficado suspensos durante quatro meses. O histórico mostra que a falta de regularidade nos repasses deixou de ser um episódio pontual e passou a ameaçar periodicamente um serviço essencial à sobrevivência dos pacientes renais.

Fonte: AF Noticias